6 de nov de 2011

Onde mora o perigo?

O PCdoB está há vários anos entre os partidos que mais crescem no país, proporcionalmente. Isso se acentuou na década 2001-2010. É gradual e persistente; ainda não é exponencial, mas é geométrico, segundo quaisquer critérios políticos, sociais e culturais. Este ano, de Abril a Outubro, entre outros indicadores, são 27% a mais de filiados e mais de 30% de incremento das fileiras militantes.
Surpresa? Talvez para alguns, os que se ocupam de enxovalhar a política e os partidos políticos.
Não deveria ser surpresa porque processos assim refletem fundamentos já instituídos, mesmo que não visíveis para todos desde sua gênese. O PCdoB é um partido de ideias, com projeto político definido, com base teórica e identitária, e uma teoria de construção de partido muito consistente. Essa a “usina” do crescimento recente.
Isso nasceu lá atrás, bem atrás, constituindo uma corrente com já 90 anos, sempre presente nos destinos nacionais. Uma força com vocação para a grande política e definida ideologicamente. Sempre afirmei que essa não é mera questão partidista, embora parelha com o justo orgulho de todos nós comunistas; é uma questão democrática de interesse de todas as forças sociais e políticas no país, porquanto contribui com partido político definido, capaz de fazer a disputa política, social e cultural para um novo projeto nacional de desenvolvimento. Para o PCdoB, esse é o rumo para abrir caminho ao socialismo.
Poderia parafrasear o grande comunista italiano Palmiro Togliatti: nós não nos contentamos em criticar a realidade, mesmo que do modo mais brilhante que fosse. Nós possuímos uma proposta política de solução para os problemas nacionais. Um programa, um projeto para a nação e o povo. Estamos imbuídos de não atuar apenas por nós mesmo, mas no interesse de toda a nação, que necessita de um grande, de um forte partido comunista.

“O que lembro, tenho” (Guimarães Rosa)

Quer dizer, no passado está a promessa do futuro. Assim pensamos os comunistas. Reverenciando a história honrada de 90 anos, o partido foi capaz de se atualizar, renovar programa e estratégia, concepções e práticas de partido. Isso vem progredindo há 20 anos, desde a queda do Muro de Berlim, em sucessivos congressos, com coragem teórica, otimismo histórico e o espírito crítico sobre erros e acertos da experiência mundial da luta socialista e a nossa própria.
Não se desfará essa usina de práxis laboriosamente construída. É de raiz o crescimento do PCdoB. É de raiz e de inteligência crítica. A atualização do marxismo e do leninismo, as respostas políticas e organizativas inovadoras, as articulações entre as frentes de luta política, social e de ideias com o projeto político programático para o Brasil, demonstram consistência e maturidade.
Tudo somado, o protagonismo político avançará em 2012, com candidaturas de grande prestígio e força eleitoral em diversas capitais, junto com as forças mais avançadas que sustentam o governo Dilma.
Os ataques perpetrados contra o partido, suas lideranças e as entidades populares onde atuam (não só) comunistas, desvelam que a “ficha (deles) caiu”. Tocaram a corneta para ordem unida. Por que não dar combate cerrado ao crescimento de uma outra força de esquerda no país? Tentar desmoralizar uma força determinada, estruturada e organizada segundo moldes firmes… Quanto ódio estava represado em algumas personagens e engrenagens do conservadorismo!
No quadro dos desafios do país perante a crise econômica mundial que repica, abate a Europa e mantém os EUA e Japão em relativa catatonia econômica, e crise política, Dilma se afirma e fortalece no comando do governo. Abre caminho para romper o pacto político dominante há quase 20 anos, puncionando toda a nação com os mais altos juros do mundo, que é nada menos que uma poderosa engrenagem de transferência de rendas da nação para os setores financeiros internos e externos. Superando essa equação política e econômica, o bloco de forças dominante abre caminho de oportunidades para o país e uma hegemonia prolongada no processo político nacional. Deixar consolidar o governo Dilma com as medidas avançadas frente à crise? Deixar crescer o PCdoB sem barreiras e fortalecer a esquerda no país?

“A Líbia é aqui”…

Não, não é ano em que vivemos em perigo no PCdoB. É tão somente um batismo de fogo de uma força que entra decididamente no grande tabuleiro das forças políticas nacionais. Batismo de certo tipo, porquanto os comunistas são, sem contestações, os que mais foram forjados em duras batalhas na luta política e social do país. Isso é história bem documentada. Mas é a questão de ser alvo político com os métodos “modernos” da guerra política sem nenhuma convenção, bombardeios de saturação, artilharia pesada, completa falta de escrúpulos jornalísticos.
Provas? Não, ilações, repetidas ad nauseam. De que valerão comprovações futuras de inocência de Orlando Silva e do suposto “esquema” do mancomunamento, sabe-se lá como, com “ONGs do PCdoB” . Ah, a ética reclamada pela mídia não chegou às redações e seus patrões!
O perigo é outro e vem do caráter dos ataques: linchamentos morais, julgamentos sumários, roteiros obscuros, tramas e conluios criminosos sem provas. Isso já é corriqueiro no país, lamentavelmente. O perigo é uma oposição que se omite do verdadeiro debate dos dilemas nacionais, da crise, de como enfrentá-la e se refugia no denuncismo. A oposição é forte no Brasil, mas, sem projeto alternativo; terceiriza boa parte das operações para setores da mídia plutocrática. Deriva para um conservadorismo reacionário em inesperada medida.
Tome-se a onda conservadora que mostrou sua cara na campanha de 2010 (aborto, crenças religiosas); some-se a manipulação do sentimento ético legítimo da população, como arma política de “operações derruba-ministros” para atingir o governo; some-se a produção em série de escândalos para denegrir por igual aos políticos e partidos; considere-se ódio explícito de uma direita ressentida contra Lula afetado por câncer e ter-se-á uma ameaça de fundo. É inequívoco: a crise capitalista engendra, contraditoriamente, saídas progressivas, mas também incuba ovos de serpente. Os EUA com o Tea Party e a Europa com maioria de governos conservadores que propiciam avanços da xenofobia e tendências regressivas, são alertas marcantes para todos.
Está longe disso o Brasil, felizmente, mas a semente está presente, haja vistas à operação caça-comunista que teve lugar estas semanas. Quer dizer, não vai avançar esse conservadorismo reacionário, mas isso não elude a questão central: o país precisa fazer reformas democráticas profundas, entre elas a democratização da mídia e a reforma política. Quem não avança, deixa margem ao retrocesso.
No fundo, tudo isso tempera ainda mais os comunistas e alerta todos os setores democráticos e progressistas da nação. Revela a Dilma onde residem os grandes obstáculos para o país avançar. Deixa a convicção de que os ataques se devem ao crescimento da influência e papel do PCdoB e à afirmação crescente do governo Dilma, em cujo apoio tem “papel fundamental”, nas palavras da própria Presidente. Seguirá assim, apesar dos obstáculos que fazem parte da luta política. Mas será demais reclamar que essa luta se dê sob normas democráticas?

Texto de waltersorrentino, plubicado em seu blog

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