28 de fev de 2011

Carnavalizando ou cortando cordas

Você sabia que entre os anos de 1905 e 1930 os negros eram proibidos de sair no carnaval da Bahia? Quem pensar que o canaval baiano é apenas Ivete Sangalo, Daniela Mercury e tantos outros artistas enchendo o bolso de dinheiro e sem nenhum discurso político está plenamente enganado, assim como eu estive até assistir ao debate sobre carnaval no Munguzá Cultural do Museu Théo Brandão em Maceió no último dia 24 de fevereiro com a presença dos professores Bruno César, Nádir Nóbrega e Daniel Reis.
"O carnaval é uma expressão espontânea da população brasileira" dizia o professor Bruno César, mas em muitos momentos históricos representou a divisão de classes nas quais negros eram proíbidos de sair nos blocos, como ressaltou a profesora Nádir Nóbrega.
Na Bahia essas diferenças vinheram sendo questionadas com o surgimento do Bloco Afro Ilê Aiyê que inaugurou a discussão do ser negro no Brasil. O Afoxé é o candoblé que pode ser tocado na rua e atualmente o maior afoxé da Bahia são Os Filhos de Gandhi que chega a arrastar mais de 10 mil homens(exclusivamente homens) pelas ruas de Salvador. Essa saída dos blocos afros baianos são apenas o auge dos trabalhos sociais desenvolvidos por eles durante todo ano em suas comunidades periféricas, dentre os quais está a efetivação da Lei 10.639 que garante o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas publicas e privadas.
Mesmo com todo esse discurso de valorização da diversidade racial novas formas de apartheid social vão surgindo de formas imperceptíveis, pois hoje os negros não são proibidos de brincar o carnaval, porém em compensação existem as CORDAS que servem para separar quem pode e quem não pode pagar um abadá. Podemos até considerar esse abadá como um símbolo de status social, embora já existam hoje até os camarotes que dividem mais ainda os grupos financeiros.
Vejo atualmente em Viçosa o surgimento de pequenos blocos em várias ruas nas quais as pessoas se organizam e elaboram uma camiseta padrão e criam suas próprias "cordas". E não é apenas a camiseta que torna a expressão popular massificada, mas a própria dança que com uma coreográfia padrão perde a essência da dança como livre expressão do corpo de cada um para se tornar um corpo com uma dança esteriotipada e muitas vezes banalizada, longe da formação de corpos inteligentes.Não sou contra a formação de blocos, afinal carnaval é uma expressão que vem do povo, apenas questiono a influência que a massificação possa ter sobre a espontaneidade popular, porque ao usar um padrão de camiseta e de dança acaba se perdendo a liberdade do uso de fantasias, a liberação de personagens e fantasias interiores e da própria criatividade. Um exemplo de organização popular e beleza carnavalesca são os blocos mais antigos que esse ano ressurgem no carnaval de Viçosa, como o Bloco Cara Dura que ao som de Frevo e Fantasias cortam as cordas que separam a periféria da zona central da cidade.
Viçosa tem uma forma de ser carnaval como em todos os lugares. É na Avenida Firmino Maia que se desfazem todas as cordas para se contruirem as cordas invisiveis de separação.Basta reparar como se posicionam os corpos e seus diversos grupos sociais que aparentemente se misturam. Existem os que sentam nos bares ao ar livre para beber com seus familiares. Existem os mais elitizados que se aglomeram próximos as "barracas de capeta" na frente e do lado do Mercado de Farinha onde se concentram os "paredões de carro de som" próximo a Praça Duas Vidas. Existem os que vem das margens da cidade e se aglomeram na frente do palco e pegando a parte central da avenida ondem muitos etnocêntricos temem ir por dizer que é de lá que surgem as brigas. E dentre outros grupos que vão se formando em meio a essas cordas invisíveis de separação social.
Não sou adepto ao uso de abadás e nem tão pouco estar dentro da corda, vejo o lado de fora como muito mais livre, feito de várias pipocas que representam a essência do povo e de um carnaval esquecido.
Não cabe aqui questionar a importância desse movimento de blocos que surgem na cidade, porque são importantes, ele é resultado de um sistema que estamos inseridos e no qual muitas vezes é preciso criar mecanismos para estar dentro da "roda do movimento da vida" para se sentir vivo, cabe sim enaltecer a importância do carnaval como manifestção do povo que deve ser valorizada e respeitada.
Quanto cortar as cordas que se criam é um processo de luta, resistência e vivência no cotidiano nas pequenas e até "inofensivas" atitudes que reproduzem e afirmam a necessidade de hierarquias e diferenças sociais.Temos muitas cordas a serem cortadas, principalmente as que querem fazer com que a população acredite que é inferior, que não tem direitos, que escola melhor é para ricos, que lugares melhores são para quem paga, que saúde publica é ruim e não tem jeito,dentre outros.
Nesse Carnaval seja qual for a sua forma de vivência-lo, na corda, na pipoca, em casa, em retiros... seja qual for a camisa que você vá vestir. O essencial é ter em mente que cortar as cordas que se criam ao nosso redor é um processo diário de vigilância e luta.
Bom Carnaval!
Que possamos juntos cortar muitas cordas esse ano!


Bruno Alves
Acadêmico de Licenciatura em Teatro-UFAL

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